Sob comando de Marcos Rogério, recursos do PL repetem caminho e chegam à empresa ligada a irmãos
Campanhas municipais receberam valores do diretório estadual em 2024 e registraram pagamentos idênticos à Acotec Contabilidade; movimentações estão no centro de investigação da Polícia Federal

Da redação TVC Amazônia*
A Operação Dreno, deflagrada pela Polícia Federal, colocou sob os holofotes uma sequência de movimentações envolvendo recursos do Fundo Eleitoral destinados pelo PL de Rondônia a campanhas municipais em 2024.
Os registros mostram um padrão: candidatos receberam dinheiro da direção estadual da legenda e, posteriormente, efetuaram pagamentos de valores idênticos à Acotec Contabilidade Ltda., empresa ligada aos irmãos Sharleston Cavalcante de Oliveira e Anderson Cavalcante de Oliveira.
Naquele período, o diretório estadual do PL estava sob o comando do senador Marcos Rogério, presidente regional da legenda e atualmente candidato ao Governo de Rondônia.
Diante da repetição das operações e da proximidade política entre os envolvidos, o caso levanta questionamentos sobre os mecanismos internos utilizados para autorizar, acompanhar e fiscalizar a aplicação dos recursos partidários.
O padrão aparece, segundo os registros apresentados, em campanhas de Presidente Médici, Primavera de Rondônia, São Francisco do Guaporé e Nova Mamoré. Os pagamentos à Acotec foram declarados como despesas relacionadas a serviços de assessoria contábil.
A existência dessas transferências, isoladamente, não comprova irregularidade. É justamente a natureza das movimentações e a correspondência entre os serviços declarados e os valores pagos que estão entre os pontos a serem esclarecidos pela investigação.
PF segue caminho do dinheiro
A Polícia Federal deflagrou a Operação Dreno na última quarta-feira, com diligências em Porto Velho, Ji-Paraná e Nova Mamoré.
A investigação apura movimentações consideradas suspeitas envolvendo recursos eleitorais recebidos por empresa prestadora de serviços contábeis a campanhas. Entre os pontos sob análise estão transferências posteriores para pessoas físicas e jurídicas relacionadas e a efetiva vinculação desses pagamentos aos serviços declarados.
Um dos casos mencionados na apuração envolve a Live Norte, em Porto Velho, cuja movimentação financeira passou a integrar os elementos investigados pela PF.
Dinheiro sai do PL e valores idênticos aparecem na Acotec
Entre os episódios que chamam atenção está o da campanha de Sérgio Skinão, em Presidente Médici.
Sharleston, que atuava como representante do PL perante a Justiça Eleitoral, autorizou o repasse de R$ 62 mil da legenda para a candidatura. Dias depois, a campanha registrou pagamento dos mesmos R$ 62 mil à Acotec.
A relação ganha relevância porque Anderson, irmão de Sharleston, aparece ligado à empresa de contabilidade. Anderson também ocupava a Secretaria Municipal de Fazenda de Ji-Paraná e foi exonerado após a deflagração da Operação Dreno.
Sharleston, por sua vez, mantém relação política próxima com Marcos Rogério e atua no núcleo financeiro de sua campanha ao Governo. Até meados de agosto, conforme os dados apresentados, recebia R$ 33,5 mil mensais como assessor parlamentar no Senado Federal.
Padrão se repete em outras campanhas
Situação semelhante aparece na campanha de Lucas Nunes, em Primavera de Rondônia. O candidato recebeu R$ 56 mil do diretório estadual do PL e, posteriormente, declarou pagamento exatamente no mesmo valor à Acotec.
Em São Francisco do Guaporé, o então candidato Zé Wellington recebeu R$ 85 mil da direção estadual e registrou posteriormente despesa de R$ 85 mil com o escritório.
O maior valor entre os casos citados aparece em Nova Mamoré. A campanha do prefeito Marcélio Brasileiro recebeu R$ 160 mil e declarou o repasse integral dessa quantia à Acotec por serviços contábeis.
Somados apenas esses quatro casos, são R$ 363 mil que saíram do diretório estadual para as candidaturas e reapareceram, nos mesmos valores, como pagamentos à empresa.
A coincidência exata entre os repasses partidários e as despesas declaradas não constitui, por si só, prova de desvio. Entretanto, a repetição do padrão ajuda a explicar por que o caminho percorrido pelo dinheiro passou a despertar interesse investigativo.
PL diz que partido não é investigado
Procurada sobre o assunto, a direção estadual do PL afirmou, por meio da assessoria de Marcos Rogério, que não teria esclarecimentos a prestar porque a legenda não é objeto da investigação.
“O objeto da apuração é a conduta de pessoas físicas e de prestador de serviços contratado. A atuação institucional do partido não está em causa, portanto não há ponto a ser esclarecido pelo partido”, informou a nota.
Embora a Polícia Federal não tenha indicado, nas informações apresentadas, que Marcos Rogério ou o PL sejam investigados, os recursos que aparecem nas movimentações partiram da estrutura partidária estadual. Além disso, Sharleston, apontado como responsável por autorizar repasses, mantinha vínculo profissional e político próximo ao senador.
Por isso, permanecem questões de interesse público sobre quem definiu os valores destinados às campanhas, quais controles foram adotados pelo partido, se havia conhecimento prévio de que os recursos seriam utilizados para contratar a mesma empresa e quais critérios justificaram pagamentos que, em diferentes municípios, coincidiram exatamente com os valores recebidos do diretório estadual.
Responder a essas perguntas não significa antecipar culpa ou transformar suspeitas em condenação. Significa esclarecer como recursos públicos destinados ao financiamento eleitoral percorreram o caminho entre o caixa partidário, as campanhas municipais e uma empresa ligada a pessoas próximas do núcleo político da legenda.
A Operação Dreno segue em investigação, e caberá à Polícia Federal determinar se as movimentações identificadas representam apenas despesas eleitorais regularmente contratadas ou se há irregularidades e responsabilidades individuais por trás do fluxo financeiro.
Veja abaixo como valores foram distribuídos nas campanhas:




*Com informações do Rondoniagora.



