REPORTAGEM ESPECIAL – O grito que não cala: mulheres da OAB/RO estão na linha de frente contra a violência

Estado dobra casos de feminicídio em um ano; presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica da entidade fala da urgência de políticas públicas, informação e acolhimento
Por Felipe Corona – TVC Amazônia
Rondônia sangra em silêncio e agonia. Entre janeiro e julho deste ano, 17 mulheres foram assassinadas apenas por serem mulheres. O número, revelado pelo Observatório Estadual de Segurança, dobra a tragédia registrada no mesmo período do ano passado, quando oito feminicídios foram contabilizados. Em apenas 12 meses, o salto é de 112% — um retrato doloroso de uma realidade que insiste em se repetir.
Porto Velho lidera a estatística com seis ocorrências. Logo atrás, Presidente Médici e Ji-Paraná somam duas cada. E não faltam nomes de cidades onde a violência deixou suas marcas: Mirante da Serra, Santa Luzia do Oeste, Vilhena, Buritis, Cujubim, Governador Jorge Teixeira e Itapuã do Oeste. Cada registro é mais do que um dado: é uma vida arrancada, uma história interrompida, um vazio impossível de preencher.
Essa tragédia local reverbera no cenário nacional. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 1.492 mulheres foram mortas no Brasil em 2024. A maioria era negra, jovem, morta dentro da própria casa. Nove em cada dez crimes tiveram homens como agressores — quase sempre maridos, ex-companheiros ou familiares. O lar, tantas vezes visto como refúgio, tornou-se origem da dor.
Os números do Ligue 180 também revelam o grito contido: em Rondônia, os atendimentos cresceram mais de 80% em um ano. Foram 3.922 chamadas em 2024, contra 2.171 em 2023. “É como se cada ligação fosse uma tentativa desesperada de respirar, de pedir socorro antes que a violência vire sentença”, dizem os especialistas.
E, ainda assim, muitas mulheres seguem em silêncio. O medo, a dependência financeira, a falta de informação e o descrédito diante da rede de proteção fazem com que muitas suportem agressões até o limite.

Voz da resistência
Em meio a esse cenário, a advogada Rosimar Francelino, presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica da OAB-RO e coordenadora da Rede Lilás, é uma das vozes que insistem em romper o silêncio.
“O que precisamos, antes de tudo, é de informação. Informação que ilumine, que faça a mulher perceber que está vivendo violência. Informação que desperte gestores, parlamentares e a comunidade para o dever de reservar recursos, de criar políticas de prevenção, de construir delegacias especializadas, de investir nas escolas. Só assim poderemos, de fato, diminuir esses números”, afirma.
A Rede Lilás, explica, é uma grande teia de cuidado: “Ela articula homens e mulheres empenhados em extinguir a violência contra meninas e mulheres. É formada pelas polícias, pelas unidades de saúde, pela Defensoria, pelo Ministério Público, pelo Judiciário, e também pelos movimentos sociais que escutam, pesquisam e acolhem. É nessa união que a rede encontra força”.
Ela lembra que muitas vezes o final não é trágico porquê a mulher conseguiu entrar a tempo nesse fluxo de proteção.

“As que sobreviveram perceberam a violência que sofriam, buscaram ajuda e se valeram da rede. A maioria das vítimas fatais nunca teve coragem de denunciar. É nesse silêncio que a violência se torna extrema”.
Mas para Rosimar, não existem casos “mais” ou “menos graves”:
“Todo corte na pele e na alma de uma mulher é o mais importante para ela — e para nós. Alguns crimes nos chocam, sobretudo quando envolvem crianças. Mas cada dor, cada ausência, pesa como uma ferida aberta”.
E, apesar da dureza dos relatos, ela insiste em enxergar um horizonte possível:
“Final feliz é quando a mulher percebe o ciclo da violência e decide enfrentá-lo. Sair, eu digo, é difícil: é uma marca que nunca desaparece. Mas quando ela toma providências, quando percebe os sinais de uma relação que se torna psicológica ou financeiramente violenta, aí começa a se reescrever sua história”.
Advocacia como ponte
Rosimar também ressalta o papel da OAB Rondônia nesse enfrentamento.
“A OAB não pode advogar diretamente pela vítima, mas tem a missão de acolher, encaminhar e, sobretudo, impulsionar a percepção da violência. Cabe à instituição cobrar orçamento sensível a gênero, fomentar campanhas e manter viva a luta pela proteção das mulheres. É nisso que a Ordem se firma: promover justiça, dar voz e abrir caminhos”.
Assim, entre estatísticas que ferem e histórias que resistem, fica uma certeza: é preciso olhar para além dos números. Cada dado esconde um rosto, um nome, uma vida interrompida. E, em cada sobrevivente, há também a possibilidade de renascer.






