No encerramento da COP30, presidência reforça apelo por cooperação enquanto impasses seguem sem solução
André Corrêa do Lago destaca força do consenso e alerta que sem avanço no Acordo de Paris “todos sairão perdendo”; cientistas cobram menção explícita aos combustíveis fósseis no texto preliminar

Por Felipe Corona – Enviado especial TVC Amazônia
Belém (PA) — O último dia da COP30 começou marcado por um discurso firme do presidente da conferência, André Corrêa do Lago, diante da divulgação de novos rascunhos de decisão e da constatação de que ainda há impasses relevantes a serem superados.
Na plenária final, Lago pediu unidade entre os países e reforçou que o fortalecimento do regime climático global depende de cooperação. “Precisamos preservar este regime, mas precisamos preservá-lo com cooperação”, afirmou.
Ele lembrou que o cenário internacional continua instável, citando episódios como a retirada temporária dos Estados Unidos do Acordo de Paris e debates recentes sobre possíveis novos desligamentos.
Para Lago, a progressão de eventos climáticos extremos reforça a urgência do trabalho conduzido em Belém. “O mundo está nos observando”, disse, ao reiterar que o consenso — embora lento e alvo de críticas — é a base que sustenta o processo multilateral.

“Todos sabemos quantos obstáculos existem para transformar palavras em prática”, declarou. “Mas o consenso que às vezes frustra tantos observadores é, na verdade, uma força enorme deste regime.” Ele pediu que as delegações evitem acirrar divergências nas horas finais, lembrando que enfraquecer o Acordo de Paris significaria perdas para todos.
Lago também reconheceu que algumas prioridades, como o avanço nas discussões sobre a eliminação dos combustíveis fósseis, podem não progredir no ritmo esperado.
Sem citar diretamente o tema, comentou o debate sobre o chamado “mapa do caminho” dos fósseis: “Esta não é uma presidência orientada a favorecer preferências do país anfitrião, mas a fortalecer algo que seja bom para todos nós”.
Críticas da comunidade científica
Nos corredores da Zona Azul, enquanto delegações tentavam destravar os últimos pontos de discordância, cientistas e observadores intensificavam a pressão.
O climatologista Carlos Nobre, do Pavilhão das Ciências Planetárias, defendeu a adoção de medidas mais duras no Brasil. “Nós temos que zerar todo o desmatamento (…) o Congresso precisa aprovar uma lei que acabe com o desmatamento em todos os biomas do país”, disse a jornalistas.

Nobre também foi crítico ao primeiro rascunho do chamado Pacote de Belém, divulgado na madrugada e rapidamente contestado pela comunidade científica e por organizações da sociedade civil.
Para ele, a ausência de uma referência explícita à urgência de negociar o fim dos combustíveis fósseis compromete a credibilidade do documento. “A pior falsa solução para a crise climática é não haver uma menção direta aos fósseis nesse texto”, afirmou. “Será muito estranho se o documento final não abordar o tema.”
Clima de encerramento

Após o incêndio registrado nos pavilhões nacionais na véspera, o ambiente na Zona Azul já era de despedida. Equipes de TV desmontavam equipamentos, negociadores circulavam apressados em reuniões improvisadas pelos corredores e bombeiros faziam vistorias frequentes nas instalações.

Entre expectativas e incertezas, as horas finais da COP30 se tornaram decisivas para saber se Belém conseguirá entregar um resultado à altura das cobranças globais — e do momento crítico enfrentado pelo planeta.



