Indígenas realizam novos protestos pacíficos diante da COP30 em Belém
Grupos de diferentes povos bloquearam a entrada principal da Zona Azul logo no início da manhã, o que levou à mobilização de forte aparato de segurança

Por Felipe Corona – enviado especial TVC Amazônia
Belém (PA)- O quinto dia da COP30 em Belém começou ainda de madrugada. Por volta das quatro horas da manhã desta sexta-feira (14), indígenas Munduruku fecharam o acesso principal à Zona Azul.
Para reforçar a segurança no local, equipes da Polícia do Exército, da Força Nacional e da Polícia Federal foram acionadas e permaneceram na área. A manifestação transcorreu de maneira tranquila, sem episódios de confronto ou tentativas de invasão.
Com o bloqueio, participantes da conferência foram encaminhados para uma entrada lateral, que ao fim do evento, também funciona como saída.

O grupo protestou contra a Ferrogrão e outros projetos de infraestrutura que consideram ameaças a seus territórios. Eles pediam um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para entregar uma carta, mas receberam a informação de que ele não estava na capital paraense.
De acordo com a rádio CBN, a organização da COP propôs, em alternativa, uma reunião com o presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago.

Pouco depois, a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, foi ao local para dialogar com lideranças Munduruku. Corrêa do Lago também deixou temporariamente as mesas de negociação da convenção climática para conversar com os indígenas.
Visões
Em demonstração de apoio, observadores e outros participantes formaram um cordão de solidariedade ao redor dos manifestantes diante do Pavilhão Principal. Entre eles estava Tishiko King, indígena das Ilhas do Estreito de Torres, na Austrália, que destacou a importância da ação.

“Estamos aqui em solidariedade aos nossos parentes indígenas brasileiros, pela defesa de sua cultura, território e sobrevivência. Como sociedade civil, nosso papel é ouvi-los e apoiá-los nessa luta que estão liderando. E, se a Austrália for escolhida para sediar a COP31, continuaremos esse trabalho, mostrando que a força e a resistência dos povos indígenas estão presentes em todo o mundo.”
Minutos depois, Corrêa do Lago seguiu de mãos dadas com representantes indígenas para uma reunião interna com as ministras Sonia Guajajara e Marina Silva.

Novo protesto
No início da tarde, povos do Baixo Tapajós chegaram à Zona Azul para uma segunda mobilização no mesmo dia, a terceira ao longo da semana. Os grupos reivindicam a derrubada do Marco Temporal, mais demarcações e ampliação dos recursos destinados ao Fundo de Florestas Tropicais.

Durante o encontro com Corrêa do Lago e com as ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas), o cacique Mário, do Território dos Encantados, que reúne os povos Tupaiú, Tapajó e Arara Vermelha, em Santarém, fez um apelo direto: “Qual é a COP do povo? Quando vai acontecer? Até para pedir nossos direitos, damos de cara com a polícia”.
Ele foi uma das dez lideranças do Baixo Tapajós presentes na reunião. Ao todo, 14 povos da região pressionam pela demarcação de seus territórios e pela revogação do decreto 12.600 — apelidado por eles de “decreto da morte”, por autorizar a implantação de uma hidrovia no Rio Tapajós.

Eles denunciam que o rio, essencial para sua sobrevivência, já sofre impactos do dragagem, da instalação de portos e da contaminação por mercúrio do garimpo ilegal.
Saúde
Enquanto isso, em outro espaço da Zona Azul, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, concedeu entrevista coletiva para lançar um relatório sobre Saúde e Clima.
Segundo o documento, mais de 540 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência de calor extremo, e um em cada 12 hospitais do planeta corre risco de interrupção das atividades por efeitos relacionados à crise climática.

“A crise climática é também uma crise de saúde pública”, afirmou Padilha. Para ele, as ações de enfrentamento aos impactos do clima na área da saúde estão diretamente ligadas às agendas de adaptação e de justiça climática.



