E O POVO? Marcos Rocha acumula 227 dias fora do país e viagens custam mais de R$ 7 milhões aos cofres públicos
Em sete anos e meio de governo, agenda internacional passou por 18 países e três continentes; enquanto contribuinte enfrenta realidade dos serviços públicos, governador recebeu mais de R$ 600 mil somente em diárias

Por Felipe Corona – da equipe TVC Amazônia*
Viajar é bom. Conhecer novos países, atravessar continentes, visitar Estados Unidos, Israel, China e Europa é melhor ainda. E quando a conta pode chegar aos cofres públicos, a experiência internacional ganha um charme adicional.
Em Rondônia, o governador Marcos Rocha (PSD) parece ter levado bastante a sério a ideia de colocar o Estado no mapa-múndi. Ao longo de seus dois mandatos, o chefe do Executivo passou pelo menos 227 dias fora do Brasil, em viagens que alcançaram 18 países distribuídos por três continentes.
A conta desse invejável currículo de milhagem? Mais de R$ 7 milhões em recursos públicos, considerando as despesas das viagens internacionais informadas no levantamento. É praticamente um intercâmbio governamental. Só faltou o contribuinte receber o certificado.
227 dias longe do Palácio
Os números ajudam a dimensionar a vocação internacional da administração. Em aproximadamente sete anos e meio de mandato, Marcos Rocha permaneceu fora do país durante o equivalente a sete meses e meio. Na média, são cerca de 30 dias no exterior por ano.
Enquanto isso, o rondoniense continua fazendo um tipo bem menos glamouroso de turismo: sai do interior para Porto Velho atrás de atendimento médico, enfrenta estradas, ambulâncias e horas de espera nos serviços públicos. Não tem conexão internacional, sala VIP nem fotografia oficial. Tem senha.
Mais de R$ 600 mil só em diárias para o governador
De acordo com os números levantados no Portal da Transparência do Governo de Rondônia, somente as diárias destinadas diretamente a Marcos Rocha durante as viagens internacionais ultrapassaram R$ 600 mil.
Considerando os 227 dias apontados no levantamento, o valor corresponde a aproximadamente R$ 2.643 por dia. É aí que a viagem fica ainda mais interessante.

O Censo de 2022 do IBGE apontou uma realidade econômica muito diferente para a população rondoniense. Segundo os dados apresentados no levantamento, a renda per capita mensal no Estado era de R$ 1.991, enquanto mais de 30% dos rondonienses viviam com renda per capita mensal de R$ 486.
Ou seja: em determinadas viagens, uma única diária recebida pelo governador superava aquilo que parcela significativa da população tinha para atravessar o mês inteiro. Realmente, existem várias Rondônias. Em uma delas, R$ 486 ajudam uma família a colocar comida na mesa. Na outra, R$ 2.643 ajudam a atravessar mais um dia de agenda internacional.
Mais de R$ 7 milhões para conhecer o mundo
Somadas as despesas relacionadas às viagens internacionais, o custo ultrapassa R$ 7 milhões, segundo o levantamento. Dividido pela população do Estado, o valor equivale a aproximadamente R$ 4 por habitante. Quatro reais parecem pouco.
Mas experimente multiplicá-los por mais de 1,5 milhão de rondonienses. É assim que aquela moedinha aparentemente insignificante se transforma em uma conta milionária.
Naturalmente, viagens oficiais podem fazer parte das atribuições de qualquer governador. Missões institucionais podem buscar investimentos, estabelecer relações comerciais e abrir mercados. O ponto que precisa ser respondido é outro: quais resultados concretos esses R$ 7 milhões produziram para Rondônia?
Quanto entrou efetivamente em investimentos?
Quantos empregos foram criados?
Quais contratos foram assinados?
Quais empresas chegaram ao Estado diretamente em razão dessas missões?
Porque fotografia de comitiva é lembrança de viagem. Resultado econômico exige número.
O governador viaja; o contribuinte acompanha pela internet
O contraste fica ainda mais indigesto quando colocado diante dos problemas enfrentados diariamente pela população.
Hospitais pressionados, pacientes aguardando atendimento, infraestrutura deficiente e cidadãos obrigados a percorrer centenas de quilômetros em busca de serviços públicos convivem com uma administração cujo governador acumulou 227 dias de viagens internacionais.
Nada disso significa, isoladamente, que cada missão tenha sido desnecessária ou irregular. O que os números justificam (e com sobra) é uma prestação de contas detalhada sobre os benefícios proporcionados por cada uma delas.
Afinal, se Rondônia bancou mais de R$ 7 milhões para colocar o governo na estrada (ou melhor, nos aeroportos), é razoável querer saber o que voltou na bagagem.
Curiosamente, apesar de todo esse passaporte carimbado, Marcos Rocha mantém avaliação positiva de parcela expressiva da população. Pesquisa Quaest divulgada em agosto de 2026, conforme os dados apresentados, apontou 46% de aprovação e 38% de desaprovação.
Talvez seja a confirmação de que o rondoniense é mesmo um povo hospitaleiro. Tão hospitaleiro que, aparentemente, não se importa nem quando é o governador quem passa boa parte do tempo hospedado fora.
*Com informações da Coluna da Hora, escrita por Géri Anderson e Paulo Mendes.



