A Festa do Trabalhador em Porto Velho: quando o povo mostra que alegria, trabalho e dignidade andam juntos — e ninguém segura
Por Humberto Banchieri
Há quem diga que o Primeiro de Maio morreu, que virou feriado vazio, discurso de político e churrasco em apartamento. Ledo engano. Fui até o Parque dos Tanques, e vi que o trabalhador brasileiro ainda tem fôlego — e fôlego para fazer festa, coisa linda.

A Prefeitura, dizem as más línguas, resolveu fazer algo raro: agradecer. Sim, agradecer a quem carrega a cidade nos ombros, debaixo de sol de rachar, no trânsito que não anda, nos serviços que ninguém vê. E o resultado foi uma fotografia do Brasil profundo, aquele que não aparece no Instagram de arquiteto.
O que vi? Famílias inteiras ocupando o parque. Crianças correndo, avós sentados em cadeiras de plástico, casais de mãos dadas ouvindo som sertanejo. Mas não pense no sertanejo universitário de franquia. Pense nas comitivas, nos grupos organizados que chegaram com estrutura própria, chapéu na cabeça e vontade de pertencer. Teve carretinha de som? Teve. Teve carro rebaixado raspando no asfalto? Teve — e com orgulho. Moto de alta cilindrada roncando? Claro. E o melhor: sem um único registro de confusão.
Isso é que me fascina. O brasileiro é tido como violento, desordeiro, mas bastou um pouco de cerveja, música alta e espaço aberto para que tudo acabasse em abraço. Parece que a alegria, quando genuína, não precisa de polícia.
E aqui faço um parêntese necessário — e raro neste país. Essa festa não aconteceu por acaso nem por espontaneidade mole. Teve gente competente por trás. E é meu dever — eu, que tanto critico a desorganização tupiniquim — elogiar quando a organização é, pasmem, impecável.
Quem fez acontecer? A Fundação Cultural de Porto Velho. Não aquela fundação que só existe no papel, não. Uma fundação que pôs a mão na massa, que coordenou tendas, segurança, bombeiros, ambulância, trânsito, apoio logístico. Tudo funcionando. Sem atropelo. Sem briga. Sem fila gigante. Isso, meus caros, é raro como padre honesto.

E os nomes? Não posso, em consciência, deixar de citar. O presidente da fundação, Vanderley Silva — popular Maraca — conduziu a operação com uma eficiência que faria inveja a muitos secretários de grandes capitais. Maraca, figura conhecida das antigas, mostrou que sabe fazer cultura de verdade: aquela que sai do papel e vai para o parque, para o povo, para o sol. E ao seu lado, Emerson Garcia, outro nome que merece registro — desses que trabalham nos bastidores, que resolvem pepino, que não aparecem na foto mas sem eles a foto não existe.

A dupla Maraca e Emerson Garcia deveria dar palestra sobre como organizar evento público sem virar um circo. Porque, convenhamos, o que mais vemos por aí é dinheiro público jogado fora em som ruim, estrutura que cai, banheiro químico que vira lagoa. Em Porto Velho, não. Foi limpo, seguro, bem-feito. Palmas para eles. Palmas para a fundação.

Do ponto de vista econômico, a festa foi um formigueiro. Barracas de comida, empreendedores vendendo artesanato, ambulantes suando a camisa. O comércio local agradeceu. Visitantes de cidades vizinhas vieram, gastaram, movimentaram a economia real — aquela que não aparece no PIB mas põe comida na mesa.
O prefeito Léo Moraes, vá saber, não apareceu. Diz a nota que estava em reunião num distrito do interior. E pode ser verdade. Governar é isso: escolher onde estar. Mas fica, no ar, uma pontinha de ironia: uma festa em homenagem ao trabalhador sem o homenageante-mor. As palavras bonitas — “O trabalhador cuida da cidade todos os dias. Este é o momento de agradecer” — ficaram sob responsabilidade de seus secretários. E eles, diga-se de passagem, mandaram bem. A prefeitura ajudou com tendas, segurança delegada, Semtran, bombeiros. O prefeito não veio, mas a máquina funcionou.

E sabe o que é mais bonito? O povo não ligou. O povo, bendito povo, não precisa de político para se divertir. As comitivas continuaram lá, os carros rebaixados roncando, as motos de alta cilindrada cortando o ar, as famílias espalhadas pelo parque. A alegria, essa traidora, insiste em acontecer independentemente dos protocolos.

No fim das contas, a Festa do Trabalhador de Porto Velho me lembrou algo que venho repetindo: o Brasil não é um país para amadores. É um país para festeiros. E para organizadores competentes, como Maraca, Emerson Garcia e a equipe da Funcultural. Enquanto os economistas discutem juros e impostos, lá no Parque dos Tanques o trabalhador descobriu uma verdade elementar — que trabalho sem alegria é só cansaço.
Parabéns à Fundação Cultural de Porto Velho (FUNCULTURAL).
Parabéns aos trabalhadores que lotaram o parque. Vocês provaram que o Primeiro de Maio ainda tem voz — e ela sai com sotaque rondoniense, roncando motor de moto e batendo pancadão. É feio? É. É lindo também. É o Brasil.

























