Primeira sessão da COP30 em Belém destaca críticas de Lula e cobrança por protagonismo indígena
Coordenador-geral da Coiab reconhece avanço do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, mas afirma que repasse direto de 20% às comunidades locais “não é suficiente”

Por Felipe Corona – TVC Amazônia
Belém (PA) – A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) começou oficialmente nesta segunda-feira (10), em Belém, com discursos que reforçaram a urgência de respostas efetivas à crise climática e a valorização da ciência diante do negacionismo.
A cerimônia inaugural ocorreu no Parque da Cidade, reunindo chefes de Estado, lideranças indígenas e representantes de organismos internacionais.
Em sua fala, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou a disparidade global nos investimentos, afirmando que o mundo segue canalizando recursos para a indústria bélica enquanto posterga decisões fundamentais para conter o aquecimento global.

Lula defendeu que a mudança do clima deve ser tratada como parte de um problema estrutural de desigualdade e insistiu na necessidade de mecanismos de financiamento e cooperação tecnológica voltados ao Sul Global. Ele também afirmou que sediar a conferência na Amazônia evidencia que preservar a floresta depende de decisão política.
O presidente voltou a defender a demarcação de terras indígenas como ação central para a mitigação climática, alinhando-se às demandas de organizações indígenas presentes. “Reconhecer o papel dos territórios indígenas e das comunidades tradicionais é fundamental. No Brasil, mais de 13% do território é demarcado. Talvez ainda seja insuficiente”, afirmou.

Pressão por transição energética
O secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU, Simon Stiell, adotou um tom direto ao cobrar velocidade na transição energética. Ele destacou que investimentos em fontes renováveis já superam os realizados no carvão e argumentou que manter a dependência de petróleo e gás “deixou de fazer sentido, tanto econômica quanto politicamente”.
Stiell reforçou que ainda é possível limitar o aquecimento global a 1,5°C, desde que os cortes de emissões sejam acelerados de imediato.

Protagonismo indígena
A participação de lideranças indígenas marcou o primeiro dia de debates. Em entrevista coletiva, Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), se posicionou sobre o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que prevê mais de US$ 5,5 bilhões em recursos anunciados por países como Brasil, Noruega, França e Indonésia.
Manchineri reconheceu o avanço, mas criticou o repasse direto de apenas 20% dos recursos às comunidades indígenas e tradicionais. Ele defendeu participação ativa na governança do fundo, afirmando que a presença dos povos da floresta não pode se limitar à implementação de projetos: “Sem nós nos espaços de decisão, os equívocos se repetem”, disse.

A Coiab reivindica assentos deliberativos nos comitês nacionais e no conselho global que conduzirá o TFFF, que será operacionalizado pelo Banco Mundial. Também exige consulta prévia, livre e informada para todos os investimentos e salvaguardas assegurando direitos indígenas.
O fundo deverá remunerar países tropicais pela manutenção da cobertura florestal, mas ainda levará alguns anos para entrar em funcionamento pleno.

Governadores marcam presença
O Consórcio Interestadual da Amazônia Legal inaugurou seu pavilhão na área Azul da COP30, onde serão apresentadas políticas e iniciativas regionais de sustentabilidade.

O governador Mauro Mendes (Mato Grosso, União Brasil) foi o primeiro a chegar. Pouco depois, Wilson Lima (Amazonas, União Brasil) declarou que “as agendas ambientais nem sempre dialogam com as demandas mais urgentes dos povos amazônidas”.
Já o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), ao ser questionado sobre as altas taxas de desmatamento no estado, contestou: “Sempre defendi a preservação e temos reduzido o desmatamento ano a ano”.

O governador de Rondônia, Marcos Rocha (União Brasil), não compareceu nem enviou representantes. Até o momento, não houve explicação oficial para a ausência.



