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Seletividade alimentar na infância: quando é fase e quando exige atenção

Especialistas alertam para sinais que vão além do comportamento e podem indicar riscos nutricionais e necessidade de avaliação

Foto: Divulgação/Afya

Da assessoria

A recusa alimentar em crianças é uma das principais dúvidas entre pais e responsáveis. Embora seja comum em determinadas fases do desenvolvimento, a seletividade alimentar pode, em alguns casos, ultrapassar o esperado e trazer impactos à saúde, especialmente quando associada a condições do neurodesenvolvimento.

De acordo com o nutrólogo e professor, Rômulo Bagano, a seletividade alimentar é frequente na infância e, na maioria das vezes, faz parte do processo de crescimento. “Ela costuma aparecer entre 18 meses e 5 anos, período em que a criança desenvolve autonomia e pode apresentar neofobia alimentar, que é o medo de experimentar novos alimentos”, explica.

Segundo o especialista, cerca de 25% a 35% das crianças apresentam esse comportamento de forma transitória.

Quando deixa de ser fase

Nem toda recusa alimentar é motivo de preocupação, mas alguns sinais indicam a necessidade de investigação. Entre eles estão a restrição extrema de alimentos, a persistência do comportamento e o impacto na saúde ou na rotina familiar.

“Quando a criança aceita menos de 10 a 15 alimentos ou quando a alimentação vira um momento de ansiedade e conflito, é preciso acender um alerta”, destaca Bagano.

A realidade descrita pelos especialistas é vivida, na prática, por muitas famílias. É o caso da Eliane Oliveira da Silva, mãe de Bianca Juliane Oliveira da Silva, de 11 anos.

Segundo ela, os primeiros sinais surgiram ainda na primeira infância. “A seletividade começou por volta dos 3 anos. Teve uma fase bem desafiadora em que ela só aceitava comer pão com margarina, mingau de farinha láctea e iogurte de morango, sempre de marcas específicas. Quando tentávamos oferecer algo diferente, ela chegava a vomitar”, relata.

A limitação alimentar e os impactos na saúde acenderam o alerta da família. “Isso começou a nos preocupar bastante, principalmente pela questão nutricional. Era uma alimentação muito limitada e ela ainda passou a ter prisão de ventre. Foi quando o pediatra nos encaminhou para uma nutricionista”, conta.

Com acompanhamento profissional, a família iniciou um processo gradual de adaptação alimentar. “Fomos ampliando aos poucos, sempre respeitando o tempo dela. Quando ela aceitou feijão, foi uma sensação de alívio. Passamos a incluir outros alimentos junto, de forma adaptada”, afirma.

Eliane também destaca a forte influência da sensorialidade no comportamento alimentar da filha. “Ela rejeita antes mesmo de experimentar, pelo cheiro, pela aparência ou pela textura. E precisa que os alimentos estejam separados no prato, cada um no seu lugar”, explica.

Diagnóstico e acolhimento

O processo até o diagnóstico também foi marcado por dúvidas e sentimentos difíceis. “O primeiro sentimento foi de culpa. Eu me perguntava como não percebi antes, já que ela tinha alguns sinais. Mas com o tempo entendi que não é simples. Hoje olho com mais acolhimento para tudo isso”, relata a mãe.

A própria Bianca também reconhece suas dificuldades, mas demonstra avanços. “Tem coisas que eu ainda não gosto, principalmente por causa do cheiro ou da textura. Mas já consegui provar alimentos que antes eu nem chegava perto”, conta.

A rotina familiar precisou ser reorganizada para atender às necessidades da criança, sem transformar a alimentação em um momento de tensão. “A gente aprendeu a equilibrar orientação com respeito às limitações dela. Fizemos mudanças na alimentação da casa toda, mas sem pressão”, afirma Eliane.

O acompanhamento multiprofissional foi fundamental nesse processo. “Ela faz acompanhamento com vários profissionais, e o apoio da família e da escola também fez toda a diferença. Não é um processo individual, envolve toda uma rede”, destaca.

Riscos nutricionais e sinais de alerta

Mesmo quando a criança se alimenta, a restrição pode trazer prejuízos à saúde. A pediatra Adriana Capila alerta para os riscos. “Existe risco de deficiência de nutrientes importantes, mesmo que a criança esteja ingerindo quantidade suficiente de comida. Isso pode impactar o crescimento, a imunidade e até o comportamento”, afirma.

Segundo os especialistas, sinais como perda de peso, cansaço, infecções frequentes e constipação devem ser investigados.

Forçar a criança a comer está entre os principais erros, de acordo com os especialistas. “Forçar pode gerar uma associação negativa com a alimentação e aumentar a recusa”, explica Bagano.

A recomendação é apostar em exposição gradual e ambiente tranquilo. “Quando a alimentação vira uma batalha, a tendência é piorar. O ideal é trabalhar com rotina, previsibilidade e respeito ao tempo da criança”, reforça Adriana Capila.

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